By Boi na Linha abril 30, 2025
Entrevista | Guilherme Whyte
![]() Oficina realizada em Cuiabá em 2024 reuniu grande diversidade de participantes |
O coordenador de projetos do Programa Boi na Linha, Guilherme Whyte, é o responsável pela agenda das Oficinas de Capacitação, que têm levado conhecimento técnico e boas práticas a diferentes cidades da Amazônia Legal. Nesta entrevista, Guilherme compartilha os bastidores, os desafios, os aprendizados e os impactos concretos desse trabalho que vem aproximando os protocolos do dia a dia dos produtores, frigoríficos e representantes públicos.
Qual é o papel das Oficinas de Capacitação dentro da estratégia do Programa Boi na Linha? |
Quando e por que essas oficinas começaram a ser realizadas? Como são escolhidas as cidades que as recebem?
As oficinas começaram em fevereiro de 2020, pouco antes do lançamento da primeira versão do protocolo. Percebemos que o setor precisava de apoio técnico para compreender e aplicar os critérios de monitoramento, relato e verificação (MRV). A escolha das cidades é feita com base em dados de monitoramento ao longo do ano e também em sugestões dos próprios participantes. Em 2025, por exemplo, voltamos a Manaus após um tempo sem atividades por lá. Redenção, no Pará, também surgiu a partir da demanda local.
Quais são os principais temas abordados nas oficinas e como os conteúdos são adaptados para públicos diversos?
De forma geral, tratamos das ferramentas de MRV e, neste ano, com foco especial nas atualizações do Protocolo 2.0. A abordagem depende muito do perfil dos participantes. No ano passado, em Redenção, por exemplo, tivemos muitos produtores, então adaptamos o conteúdo para o dia a dia deles. Já em Cuiabá, o público foi composto por representantes de frigoríficos e órgãos públicos, exigindo uma abordagem mais técnica e voltada para a auditoria. A linguagem é sempre ajustada para ser acessível e útil para cada contexto.
Como tem sido a composição do público nas oficinas? Vocês têm conseguido atrair os principais setores da cadeia?
Sim, e isso é algo que temos comemorado. No ano passado, reunimos 216 participantes de 97 instituições diferentes. Isso mostra que estamos atingindo nossos objetivos. Os frigoríficos, em especial, têm demonstrado um engajamento contínuo.
A sustentabilidade ainda é vista como custo ou já é percebida como diferencial competitivo?
Hoje há um entendimento mais maduro sobre o tema. Com as exigências de mercados internacionais e o avanço das discussões, os atores da cadeia produtiva já percebem que práticas sustentáveis agregam valor. A rastreabilidade e o monitoramento se tornaram aliados estratégicos, e a sustentabilidade é consequência dessa evolução.
Você percebe um amadurecimento no diálogo entre os diferentes setores?
Sem dúvida. Já são cinco anos de oficinas, e o espaço de diálogo tem se consolidado. Nosso objetivo não é apenas transmitir conhecimento, mas ouvir, trocar experiências e construir juntos. A oficina de Cuiabá, por exemplo, foi um marco nesse sentido — tivemos uma grande diversidade de atores e um ambiente muito rico, de troca.
Pode compartilhar um exemplo concreto de impacto das oficinas?
A própria oficina de Cuiabá é um bom exemplo. Foi um encontro que possibilitou uma troca profunda de experiências e reflexões estratégicas. Em nível nacional, podemos citar o lançamento do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos pelo MAPA, que dialoga diretamente com temas que discutimos nas oficinas. Também temos acompanhado movimentos relevantes no Pará e no Amazonas.
Quais são os principais desafios que vocês enfrentam nas oficinas?
O principal desafio ainda é a resistência à mudança. Em muitos casos, não é nem uma resistência propriamente dita, mas uma dificuldade de adaptação às novas exigências. Com o tempo e com o avanço do Programa, isso vem diminuindo, mas ainda é uma barreira a ser superada, especialmente em contextos mais isolados.
E os fornecedores indiretos — o chamado “ponto cego” da cadeia? Como isso é tratado?
O protocolo ainda não contempla auditorias sobre os fornecedores indiretos, mas nas oficinas tratamos desse tema com bastante seriedade. Trabalhamos a conscientização sobre a recria e seus impactos, e sugerimos práticas preventivas para mitigar riscos. É um ponto sensível e crítico, que demanda soluções coletivas.
Vocês também têm discutido a reintegração de produtores bloqueados?
Sim, especialmente em oficinas com mais presença de produtores. O Protocolo 2.0 traz alguns pontos sobre embargos, e conseguimos orientar com base nesse conteúdo. Mais do que isso, as oficinas abrem espaço para o compartilhamento de experiências, o que enriquece muito a discussão.
Na sua opinião, qual é o principal legado das oficinas? Elas vão além da capacitação técnica?
Sem dúvida. O maior legado está na semente que deixamos em cada cidade: o estímulo a novas políticas, novos olhares e formas de organização baseadas no protocolo. Também aprendemos muito com a realidade local de cada participante. É uma via de mão dupla.
Como a parceria com o Ministério Público Federal contribui para o Programa?
Ter o MPF como parceiro dá legitimidade e peso institucional ao protocolo. Isso reforça que o que estamos discutindo não são apenas boas práticas, mas critérios respaldados pela legislação. Esse apoio aumenta o comprometimento dos participantes.
O que podemos esperar da nova rodada de oficinas em 2025? Há novidades?
Esperamos ampliar ainda mais nosso alcance e visitar cidades que não recebem oficinas há algum tempo. Neste ano, teremos o apoio de uma consultoria especializada na execução das oficinas, o que nos deixa bastante otimistas com a qualidade e a recepção dos encontros.
Para encerrar: qual foi o momento mais marcante para você nessa jornada?
Sem dúvida, a oficina de Cuiabá. Foi um momento em que conseguimos reunir uma diversidade impressionante de representantes da cadeia produtiva, incluindo o MPF e sindicatos. Foi um evento muito rico, onde conseguimos, de fato, promover uma imersão profunda nos temas mais relevantes do setor.
