By junho 2, 2025

Cintia Cavalcanti, da Amigos da Terra, atua na consolidação das auditorias da pecuária na Amazônia Legal

Com o avanço dos ciclos de auditoria na cadeia da carne, cresce também o papel dos atores que garantem a integridade técnica e a coerência do processo. Nesta entrevista, Cintia Cavalcanti,  Analista do Programa de Cadeias Agropecuárias da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, organização que integra a Secretaria Executiva do Programa Carne Legal, detalha como funciona a atuação nas auditorias da pecuária, explica as diferenças entre os tipos de auditoria, aponta desafios e destaca avanços recentes — incluindo a maior abrangência do processo e a construção da governança em múltiplos estados.

Qual é o papel da Amigos da Terra no processo de auditoria da cadeia da pecuária?

A gente participa tanto das auditorias de terceira parte quanto das análises automáticas. No caso das auditorias de terceira parte – aquelas em que os frigoríficos contratam empresas auditoras – recebemos os relatórios por meio do sistema de gestão coordenado pelo Imaflora. Nosso papel é sistematizar esses dados, tabular, organizar e facilitar a análise, comparando o desempenho dos frigoríficos por estado, conforme os percentuais de conformidade e inconformidade.

Nas análises automáticas, feitas pela UFMG por meio do sistema MAPIA, seguimos o mesmo princípio. Temos acesso aos dados por meio de autorização do Ministério Público e elaboramos os resumos públicos dessas análises – assim como já ocorre nas auditorias de terceira parte. Também baixamos os relatórios completos e os metadados, fundamentais para eventuais contestações das empresas.

Essas análises, embora fundamentais, possuem limitações. A principal delas é que, como são automáticas, não conseguimos verificar, por exemplo, se um desmatamento é legal ou ilegal – o sistema apenas identifica a ocorrência.

O que mudou neste último ciclo de auditorias?

Uma mudança importante foi a entrada do estado do Tocantins nas auditorias. Também notamos uma melhoria no desempenho de frigoríficos mais relevantes, especialmente no Pará. Além disso, observamos um crescimento no volume de gado coberto pelas auditorias: no Pará, subimos de 72% no ciclo anterior para 82% da produção auditada neste ciclo.

Outro destaque foi o avanço na obtenção de bases de dados oficiais. Graças à atuação do MPF, que ajuizou ações civis contra alguns órgãos estaduais, conseguimos pela primeira vez acesso integral às bases de dados de todos os estados envolvidos.

Qual é a diferença entre auditorias de terceira parte e análises automáticas?

A auditoria de terceira parte é contratada pelos frigoríficos e permite a verificação direta, inclusive com apresentação de documentos que justifiquem possíveis inconformidades. Já a análise automática é aplicada quando o frigorífico não contrata uma auditoria – ou seja, é uma forma de preencher essa lacuna. Ela detecta irregularidades por meio de sistemas de georreferenciamento, mas não permite justificativas por parte do auditado.

Ambas são importantes, mas têm escopos diferentes. A análise automática garante transparência mínima sobre empresas que não participam voluntariamente do processo.

Como o novo sistema de gestão das auditorias contribui para o processo?

Embora eu ainda não tenha acessado diretamente o novo sistema, sei que ele traz um grande potencial de organizar, centralizar e facilitar o fluxo de informações entre os atores envolvidos. Com a ampliação dos ciclos e a inclusão de mais estados, o volume de dados aumentou muito. Esse sistema permite acompanhar etapas, relatórios e cronogramas com mais eficiência.

Quais foram os principais desafios enfrentados neste ciclo?

Um ponto crítico foi a falta de padronização em algumas bases de dados – especialmente as relacionadas ao Cadastro Ambiental Rural (CAR). Isso gerou divergências nos percentuais de inconformidade informados pelas empresas de auditoria. Fizemos uma dupla checagem dos dados e, em alguns casos, tivemos que corrigir os resultados apresentados.

Como está a estrutura de governança do Programa Carne Legal?

Um dos avanços mais importantes foi a expansão da governança para os seis estados participantes: Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. Utilizamos o modelo já consolidado no Pará – com câmara técnica, câmara social e secretaria executiva – para replicar nos demais. Isso permite uma aplicação mais harmonizada do protocolo, maior organização e melhor comunicação entre os envolvidos.

O protocolo de auditoria abarca todos os critérios relevantes?

Atualmente, o protocolo contempla todos os critérios principais, mas ainda existem lacunas importantes, como a falta de monitoramento de fornecedores indiretos. Esse é o maior desafio hoje. Também há discussões em andamento sobre o critério de propriedade auxiliar, que ainda não entrou em vigor. Ele é polêmico, mas acredito que, com diálogo, será implementado de forma justa e técnica.

O fortalecimento das auditorias está promovendo mudanças reais na pecuária?

Sem dúvida. Ainda é difícil mensurar com precisão o impacto direto das auditorias na redução do desmatamento, pois muitos fatores influenciam esses dados. Mas o aumento da cobertura e da participação dos frigoríficos mais relevantes, aliado ao maior comprometimento da indústria, indica que estamos no caminho certo.

O interesse crescente dos próprios frigoríficos em monitorar os indiretos e em dialogar sobre melhorias no sistema é um sinal positivo de transformação. Seguimos trabalhando para fortalecer essa governança e ampliar a transparência na cadeia.